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Amor de Perdição - uma leitura
Perguntar-se-á o distinto leitor sobre a razão de uma tão deleitosa ilustração em plena aula de Português. Não são as palavras dos autores suficientemente sólidas, belas e pungentes? Não são elas suficientes para nos mover de ternura (e piedade, caso se prolongassem)?
A resposta é: não.
Camilo que me perdoe, mas esta linguagem hermética, mais do que pede, exige a beleza da imagem, o retrato fiel do que a sua criatividade obscuramente pariu. Ora, como já se terá apercebido, caro leitor, porque a evidência não permite a dúvida, a obra apresentada é da minha autoria (o seu a seu dono) e serviu para que os meus jovens entendessem o mistério do seguinte parágrafo:
"Dezoito anos! O amor daquela
idade! A passagem do seio da família, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abre ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida!"
Tanto esforço teria sido poupado aos meus petizes se ele tivesse escrito, tipo " o gajo aquilo bateu-lhe mêmo, e pronto, tava sempre a bazar de casa, só via a miúda à frente, que ainda por cima 'tava caidinha por ele"
Custava assim tanto, Camilo? Vai na volta, e sem querer mérito que me não caiba, mas vai na volta eu fazia o que fazias melhor do que tu fizeste.
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Março, 2
Era 6ª feira deste dia, era meio dia e trinta e cinco. Tu partias e eu, a 300km, dava uma aula de poesia e depois ia ao teatro.
É 2ª feira, era meio dia e trinta e cinco e pedi-lhes que me deixassem fazer uma chamada. “-É assim a vida, filha…não estás a dar aula? Vai lá para a aula!” Tremia-lhe a voz. Tremia-me o coração.
Era 6ª feira, era uma e trinta e cinco, ia a casa almoçar, estacionei na subida do Sete Mares para uma sopa e depois ir para o CCL, quando soube que, a 300km, sem que eu soubesse, tinhas ido embora.
É 2ª feira, era uma e trinta e cinco, evitei a subida do Sete Mares, entrei em casa e fui sorrir ao teu sorriso na fotografia silenciosa.
Era 6ª feira, cheguei a casa e esperavam-me as pessoas de sempre. Entrei e chorei-te, entorpecida, ao ver-te naquela fotografia em que amas com o sorriso do teu olhar. Depois fui vestir-me de preto integral, logo eu, que disse que nunca o faria, apenas poria “um trapo preto ao pescoço”, como costumavas ironizar.
Ao descer as escadas, dormente, pensei: quando aqui voltar, terei enterrado o meu pai.
É 2ª feira, estou vestida de preto integral, mas com um “trapo” colorido ao pescoço. Apesar das lágrimas, serena, voltou a certeza de que nada te pode roubar de mim: as “parvoeiras” de corrermos atrás um do outro, o comer melancia “à bacro”, as quadras hilariantes através das quais comunicávamos durante semanas, a tua “mota quitada”, com que subiste rampas improvisadas para motocross na tapada do meu padrinho, as conversas longas debaixo da laranjeira e tudo o que não se diz, porque é nosso.
É 2ª feira, “meu sereno pescador de horas vagas” e estás vivo, porque nunca te vou deixar morrer.
Foto: Antónia Mancha


