8:25 da manhã,
os passos encaminham-me para a sala, enquanto o cérebro, dormente, se deixa
levar.
Mas por pouco tempo.
O corredor é já adiante e há que atravessá-lo.
Estalo o pescoço, lamento as aulas de artes marciais
que nunca quis frequentar e encaro o destino. São milhares de moços,
acotovelam-se e gritam. O cérebro estala, cerro os punhos, e num assomo de
fúria, vou dizendo: “Com licença”. O resultado é pouco
satisfatório. Há que accionar o plano B: de olhar acutilante, começo a
exclamar: “Queiram, por obséquio, deixar que alcance os meus sôfregos pupilos, que…”
A frase deixo-a a meio, porque assim aconteceu, tal o ar de dúvida estampado no
rosto de todos. Pareciam ter medo também, mas isso não posso confirmar.
Nada como dar-lhes estalos de palavras desconhecidas,
pensei. E entrei na sala.
90 minutos depois repito o percurso, como não vos
quero maçar, entremos em mais uma sala, para novo round. 30 alunos, um total de 60 olhos, ávidos. Pelo toque de saída.
Lá começam a trabalhar, mas há um pequeno rumor que me incomoda. Não faço
segredo da indisposição que me está a tomar e acrescento que posso ser muito imprevisível,
quando indisposta.
Não acreditam em mim, e lá tive de pedir ao F. que abandonasse
a sala. Suplicante e de olhar marejado assegura-me que não voltará a falar.
Coração de pedra, as palavras do jovem F. não me comovem. Emudecidos, 58 olhos
miram a minha frieza.
"Vamos continuar", e assim foi, a M. foi ter com o F.
Contrariamente ao colega, quando lhe peço que saia, não protesta, não se
vitimiza, apenas bate com a porta.
Mas isso foi, seguramente, porque estava revoltada com
a SMS que tinha acabado de receber.
Mensagens populares deste blogue
01 · Análise ↗ 02 · Sistematização ↗ 03 · Ideia-chave ↗ 01 - ANÁLISE Leitura integral do soneto Seleciona um verso para ver a sua interpretação. As palavras sublinhadas abrem diretamente o glossário. Texto integral · Antero de Quental 01 Aquela, que eu adoro, não é feita O pronome «Aquela» aponta para uma figura feminina indeterminada. O verbo «adoro» revela a intensidade da idealização. 02 De lírios nem de rosas purpurinas , A negação afasta a figura amada das imagens convencionais de beleza floral e sensual. 03 Não tem as formas lânguidas , divinas A repetição de «Não» reforça que o Ideal não se define por atributos físicos ou por uma beleza visível. 04 Da antiga Vénus de cintura estreita... A referência a Vénus, deusa da beleza e do amor, rejeita o modelo clássico de beleza corporal. 05 Não é a Circe , cuja mão suspeita A alusão mitológica a Circe afasta o Ideal da sedução enganadora e da manipulação. 06 Compõe filtros mortais entre ruínas, Os «filtros mortais» evo...
Lacrimae rerum
01 · Análise ↗ 02 · Sistematização ↗ 03 · Ideia-chave ↗ 01 - ANÁLISE Leitura integral do soneto Seleciona um verso para ver a interpretação. As palavras sublinhadas abrem diretamente o glossário. Texto integral · Antero de Quental (A Tommaso Cannizzaro) 01 Noite, irmã da Razão e irmã da Morte, A apóstrofe e a personificação da Noite associam-na simultaneamente à Razão, ao conhecimento, e à Morte, à finitude. 02 Quantas vezes tenho eu interrogado A expressão «Quantas vezes» revela a persistência de uma interrogação existencial nunca resolvida. 03 Teu verbo, teu oráculo sagrado, A metáfora do «oráculo sagrado» mostra que o sujeito espera da Noite uma revelação sobre o sentido da existência. 04 Confidente e intérprete da Sorte ! A Noite é figurada como confidente e intérprete do destino, a «Sorte», que o ser humano não consegue compreender. 05 Aonde vão teus sóis, como coorte A pergunta sobre os «sóis» amplia a reflexão para o universo. A comparação com uma «coorte» evoca um grupo qu...
Despondency
01 · Análise ↗ 02 · Sistematização ↗ 03 · Ideia-chave ↗ 01 - ANÁLISE Leitura integral do soneto Seleciona um verso para ver a interpretação. As palavras sublinhadas abrem diretamente o glossário. Texto integral · Antero de Quental 01 Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram A repetição de «Deixá-la ir» inicia uma série de imagens de abandono. A ave funciona como símbolo de um ser vulnerável e desamparado. 02 Ninho e filhos e tudo, sem piedade... A enumeração «Ninho e filhos e tudo» exprime uma perda total, agravada pela expressão «sem piedade». 03 Que a leve o ar sem fim da soledade A «soledade» transforma a solidão num espaço ilimitado e sem proteção. 04 Onde as asas partidas a levaram... As «asas partidas» simbolizam a impossibilidade de recuperar o rumo ou a capacidade de resistir. 05 Deixá-la ir, a vela, que arrojaram A segunda imagem simbólica é a vela de uma embarcação, entregue à força dos elementos. 06 Os tufões pelo mar, na escuridade , Os «tufões» e a «escuridade» representam...

Comentários
Enviar um comentário