Horas Mortas - O Sentimento de um Ocidental IV
Leitura integral · Horas Mortas
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Quadra 01 · O céu como abertura imaginária
01O teto fundo de oxigénio, de ar,
02Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
03Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
04Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
Quadra 02 · A cidade volta a fechar-se
05Por baixo, que portões! Que arruamentos!
06Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
07Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
08E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.
Quadra 03 · Arquitetura convertida em música
09E eu sigo, como as linhas de uma pauta
10A dupla correnteza augusta das fachadas;
11Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
12As notas pastoris de uma longínqua flauta.
Quadra 04 · O sonho de perfeição
13Se eu não morresse, nunca! E eternamente
14Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
15Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
16Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Quadra 05 · Uma esperança dirigida aos descendentes
17Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
18Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
19Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
20Numas habitações translúcidas e frágeis.
Quadra 06 · Uma expansão sonhada
21Ah! Como a raça ruiva do porvir,
22E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
23Nós vamos explorar todos os continentes
24E pelas vastidões aquáticas seguir!
Quadra 07 · O choque com a realidade
25Mas se vivemos, os emparedados,
26Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
27Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
28E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.
Quadra 08 · A tristeza dos espaços marginais
29E nestes nebulosos corredores
30Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
31Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
32Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
Quadra 09 · Uma fauna urbana ameaçadora
33Eu não receio, todavia, os roubos;
34Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
35E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
36Amareladamente, os cães parecem lobos.
Quadra 10 · Uma cidade sob vigilância
37E os guardas, que revistam as escadas,
38Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
39Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
40Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
Quadra 11 · Da dor individual à Dor humana
41E, enorme, nesta massa irregular
42De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
43A Dor humana busca os amplos horizontes,
44E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
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Da utopia ao sofrimento universal
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MORTASUtopia · Clausura
Futuro · Dor humana
01 · EIXO DE LEITURAAtmosfera
Madrugada, silêncio, céu estrelado e ruas ameaçadoras.
Observação e interpretação do poema
02 · EIXO DE LEITURAEvasão
Transmigração, flauta pastoril e sonho de imortalidade.
Observação e interpretação do poema
03 · EIXO DE LEITURAUtopia
Casas transparentes, filhos e futuro mais livre.
Observação e interpretação do poema
04 · EIXO DE LEITURAMemória épica
Navegações reinterpretadas como desejo de expansão futura.
Observação e interpretação do poema
05 · EIXO DE LEITURARealidade urbana
Habitantes emparedados, violência, tabernas e vigilância.
Observação e interpretação do poema
06 · EIXO DE LEITURAConclusão
A Dor humana procura horizontes, mas permanece cercada.
Observação e interpretação do poema
Madrugada · sonho · clausura e Dor humana
A esperança de um futuro luminoso é interrompida pela experiência de clausura; o sofrimento do “eu” transforma-se, no último verso, em “Dor humana”.
Madrugada · sonho · clausura e Dor humana
Para pensar: Que efeito produz a passagem da utopia das casas transparentes para a imagem dos “emparedados”?
transmigrar
Passar para outro lugar ou estado; aqui, desejo de ultrapassar os limites presentes.
Fechar definição ×chaveiros
Guardas ou responsáveis por chaves, sobretudo em contextos de reclusão.
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